Durante anos a cozinha foi, para mim, um sítio de passagem. Entrava, tirava algo do frigorífico, aquecia, comia de pé junto ao balcão e saía. O tempo entre a fome e a saciedade era o mais curto possível. Considerava isso eficiência. Hoje vejo-o como uma forma de ausência.
A mudança não aconteceu de um dia para o outro. Começou com uma panela de ferro que herdei da minha avó. Era pesada, escura, com o fundo ligeiramente irregular. Não combinava com nada na cozinha moderna que eu tinha na altura. Mas tinha peso. E o peso exigia atenção. Não se podia levantar com uma mão distraída. Não se podia deixar ao lume alto sem vigiar. A panela pedia presença. E eu, sem perceber bem porquê, decidi dar-lha.
O tempo que a comida pede
Quando se cozinha com pressa, tudo se torna secundário: a textura dos legumes, o cheiro que sobe da panela, a forma como o azeite muda de cor quando aquece. Quando se cozinha sem pressa, esses detalhes deixam de ser ruído de fundo e passam a ser o próprio evento. Cortar uma cebola deixa de ser um passo intermédio e passa a ser um gesto completo. O som da faca na tábua, o cheiro que se solta, a forma como as camadas se separam — tudo isso existe apenas se houver tempo para o notar.
Comecei a comprar ingredientes de forma diferente. Em vez de seguir uma lista rígida, passei a ir ao mercado ou à mercearia com uma ideia vaga e a deixar que o que estava disponível naquela semana influenciasse o que ia cozinhar. No outono, abóbora e maçãs. No inverno, raízes e legumes de folha escura. Na primavera, as primeiras ervas e os tomates ainda pequenos. No verão, tudo o que o sol tinha amadurecido. Esta forma de escolher não é original. É antiga. Mas para mim foi uma descoberta.
Há uma diferença entre cozinhar o que se planeou e cozinhar o que a estação oferece. No segundo caso, a cozinha deixa de ser um lugar de execução de planos e passa a ser um lugar de resposta. Resposta ao que está maduro, ao que está fresco, ao que está disponível. Essa resposta cria uma relação diferente com o que se come. O prato deixa de ser apenas combustível e passa a ser o resultado de uma conversa entre o que se tem e o que se sabe fazer.
O ritual da preparação
Hoje a minha rotina de cozinha tem uma estrutura solta mas reconhecível. Depois da caminhada matinal, lavo as mãos, escolho o que vou preparar e começo. Às vezes é apenas um pequeno-almoço simples: ovos, pão, alguma fruta. Outras vezes é uma sopa que vai ficar a cozinhar lentamente enquanto escrevo. O importante não é a complexidade. É a sequência de gestos e a atenção que lhes dedico.
Limpar a bancada antes de começar. Escolher a faca certa. Cortar com calma. Aquecer o azeite até sentir o cheiro. Adicionar os ingredientes por ordem. Provar. Ajustar. Servir sem pressa. Cada um destes passos pode ser feito de forma automática ou de forma deliberada. A diferença não está no resultado final — embora esse também mude — mas na qualidade da experiência enquanto se cozinha.
Descobri que a cozinha é um dos poucos sítios onde o tempo ainda se comporta de forma previsível. A água demora o mesmo a ferver. A cebola demora o mesmo a amolecer. O pão demora o mesmo a tostar. Neste mundo de notificações e respostas instantâneas, a cozinha oferece uma espécie de resistência gentil. As coisas demoram o tempo que demoram. Não há atalhos reais. E essa lentidão, quando aceite, torna-se profundamente reconfortante.
Comer o que se preparou
Há um prazer particular em sentar-se à mesa com uma refeição que se preparou com as próprias mãos. Não é um prazer de conquista. É um prazer de continuidade. O mesmo corpo que cortou e mexeu e temperou é o corpo que agora se senta e come. Não há intermediários. Não há embalagens a abrir. Há apenas o prato e o tempo para o apreciar.
Procuro comer sem ecrãs. Nem sempre consigo. Há dias em que a tentação de verificar uma mensagem é maior do que a vontade de estar presente. Mas quando consigo, a diferença é notória. O sabor torna-se mais nítido. A textura torna-se mais interessante. A refeição deixa de ser um intervalo entre tarefas e passa a ser um momento completo, com princípio, meio e fim.
Não pretendo romantizar. Há dias em que a cozinha é apenas uma obrigação. Há dias em que queimo o alho ou deixo a sopa demasiado tempo ao lume. Há dias em que simplesmente não tenho paciência. Nesses dias, a cozinha continua a ser um sítio de trabalho. E isso também faz parte. O ritual não exige perfeição. Exige apenas que, na maior parte das vezes, se escolha estar presente.
Se alguma vez sentir que as refeições se tornaram apenas intervalos entre ecrãs, experimente recuperar uma panela pesada, escolher dois ou três ingredientes da estação e dedicar-lhes uma hora sem distrações. Não precisa de se tornar um cozinheiro. Precisa apenas de se tornar, por alguns minutos, alguém que está onde está — de pé na cozinha, com as mãos ocupadas e a mente um pouco mais quieta do que estava quando entrou.