Uma história sobre mapas que deixaram de servir, sobre o silêncio de uma cozinha de manhã cedo e sobre a decisão de escrever sem destino fixo.
A minha infância passou-se entre o cheiro a terra molhada depois da chuva e o som das bicicletas a passar na rua estreita onde vivíamos. A minha mãe tinha o hábito de deixar a porta da cozinha aberta de manhã, mesmo no inverno. Dizia que o ar fresco acordava a casa. Eu, na altura, achava aquilo uma exagero. Só décadas mais tarde compreendi o valor daquele gesto simples.
Estudei cartografia e planeamento. Durante quase vinte anos o meu trabalho consistiu em traçar linhas em mapas digitais: rotas, zonas, percursos otimizados. Passava os dias a reduzir o mundo a números e a caminhos mais curtos. Havia uma satisfação técnica nisso. Mas também uma distância crescente entre o mapa e o território real. Quanto mais preciso ficava o desenho, menos tempo tinha para caminhar realmente.
O ponto de viragem chegou de forma pouco cinematográfica. Em 2021, durante um período em que os projetos se acumulavam sem pausa, um colega perguntou-me, quase a brincar, se eu ainda sabia como era o cheiro da rua de manhã cedo. Ri. Depois fiquei em silêncio. Apercebi-me de que já não me lembrava. Acordava, abria o computador e o dia começava sem que eu tivesse sequer olhado pela janela.
Decidi então fazer uma experiência privada: durante um mês, antes de qualquer ecrã, saía de casa e caminhava quarenta minutos sem destino. Sem telefone. Sem podcast. Sem lista de tarefas. Apenas o corpo a mover-se e os olhos a registar o que encontravam. Nos primeiros dias senti-me ridículo. Depois começou a acontecer algo estranho: as ideias que costumavam chegar em reuniões longas passaram a surgir durante essas caminhadas. Não eram ideias de trabalho. Eram observações. Pequenas. Precisas.
Comecei a anotá-las num caderno de bolso. Não com a intenção de publicar. Apenas para não as esquecer. Com o tempo as notas cresceram. Algumas tornaram-se textos longos sobre a forma como se cozinha quando não se tem pressa, sobre o valor de uma mesa arrumada, sobre o silêncio que existe entre o fim de uma tarefa e o início da seguinte. Escrevia à noite, depois de jantar, com a mesma calma com que de manhã caminhava.
Em 2024 deixei a estrutura formal do escritório. Não por rejeição ao que tinha feito até então. O trabalho de cartógrafo ensinou-me a olhar para o espaço de forma rigorosa. Mas já não conseguia justificar um ritmo que me afastava do próprio espaço que desenhava. Queria voltar a sentir o terreno sob os pés. Queria cozinhar sem olhar para o relógio. Queria escrever sem a obrigação de transformar cada frase numa entrega.
O Mikkelai nasceu dessa necessidade de espaço. O nome apareceu quase por acaso, numa lista de palavras que soavam bem juntas. Não tem um significado profundo. É apenas um sítio onde posso colocar textos longos e deixá-los respirar. Não há urgência aqui. Não há chamadas para a ação agressivas. Há apenas a tentativa de registar o que acontece quando se decide abrandar o suficiente para notar.
Hoje a minha rotina é simples e deliberada. Acordo cedo. Caminho. Cozinho. Escrevo. Respondo a mensagens quando posso e quando sinto que tenho algo a dizer de verdade. Não pretendo que esta forma de viver seja um modelo. É apenas a forma que encontrei de estar presente nos meus próprios dias. Se alguma das minhas notas ressoar consigo, fico genuinamente contente. Se preferir seguir o seu próprio caminho sem olhar para trás, também compreendo. Cada um encontra o seu mapa.
O que posso dizer com certeza é isto: quando se começa a prestar atenção ao que já está à frente dos olhos — a luz que muda ao longo da manhã, o som da água a ferver, o silêncio depois de uma frase bem escrita — o dia deixa de ser uma sequência de tarefas e passa a ser algo mais próximo de uma conversa. Uma conversa com o próprio tempo. E essa conversa, pelo menos para mim, vale a pena ser escutada.
Se quiser escrever, pode fazê-lo através da página de contacto. Não prometo respostas rápidas. Prometo apenas que leio tudo o que chega e que respondo quando o tempo e a atenção o permitem.